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http://www.direitoshumanos.etc.br/images/stories/dhescas/escravo3.jpgApesar de o Brasil ser
considerado, no âmbito internacional, a vanguarda do combate ao
trabalho escravo, a prática está inserida em toda a cadeia produtiva do
país. Elemento inerente à reprodução do sistema capitalista, o trabalho
escravo é uma das maiores violações de direitos humanos do mundo
contemporâneo. Atividade no Fórum Social Mundial discutiu o que falta
fazer para erradicar a prática em nosso território.

Bia Barbosa - Carta Maior
“Tudo
começa com um moço chamado gato, que é um homem que vai a uma cidade
com pessoas vulneráveis e chega lá com boas promessas. A pessoa se
anima. Eles dizem que o patrão paga a passagem. Quando chega lá, a
escravidão já começou. Quando começa o pagamento, vem o desconto da
passagem, das ferramentas, do que você precisa comer. Já está tudo no
caderno, anotado, e você tem que pagar. Os vigias passam armados na
frente do da gente e deixam claro que o ambiente não é tranqüilo.”
O
relato acima é de Francisco José dos Santos Oliveira, da Associação dos
Trabalhadores e Trabalhadoras na Prevenção do Trabalho Escravo em
Monsenhor Gil, no Piauí. Escravo liberto, Francisco hoje vive no
assentamento Nova Conquista, junto com outras 40 famílias de
agricultores. Teve sorte de sobreviver a uma das maiores violações de
direitos humanos do mundo contemporâneo, e esteve nesta quarta-feira
(27) no Fórum Social Mundial para contar sua experiência, numa
atividade que buscou fazer do balanço do caminho que o país ainda
precisa percorrer para erradicar o trabalho escravo de sua cadeia
produtiva.
Segundo levantamento da ONG Repórter Brasil, que
integra a Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, a
produção de gado bovino é a campeã em número de propriedades que
utilizam mão de obra escrava no Brasil. Metade das fazendas onde a
prática foi registrada por operações do Ministério do Trabalho e
Emprego era de gado. Já em relação ao número de trabalhadores libertos
nessas operações, a produção da cana ocupa o triste primeiro lugar.
Muitas vezes, mais de mil trabalhadores são libertos de uma só vez nas
ações dos grupos móveis de repressão.
Hoje, cada uma dessas
hipóteses corresponde ao trabalho análogo ao escravo no Brasil: o
trabalho forçado, onde a pessoa é obrigada a trabalhar pela força das
armas; a servidão por dívida; a jornada exaustiva, quando de alguém,
para além da jornada legal, é exigida uma produtividade que o corpo não
agüenta; e o trabalho degradante, quando são suprimidas as condições
básicas de saúde e segurança. Todas elas são encontradas nas cadeias
produtivas brasileiras, e seus produtos chegam a toda a rede de varejo
nacional.
“O trabalho escravo tem crescido no contexto da
globalização. Hoje há mais de 12 milhões de pessoas em situação de
trabalho forçado no mundo. Na América Latina, são 1,3 milhão. O lucro
obtido por esta forma de trabalho ao ano passa de 30 bilhões de
dólares, e o custo para os trabalhadores que estão submetidos a esta
situação é de mais de 21 bilhões de dólares. Ou seja, apesar de muito
poucos Estados nacionais reconhecerem oficialmente a existência do
tema, este é um fenômeno mundial, presente na cadeia produtiva de
grandes e modernas empresas multinacionais”, afirma Laís Abramo,
diretora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.
“A
sociedade brasileira está acordando para o fato de que o trabalho
escravo contemporâneo não é restrito à atividade rudimentar nos rincões
do país. Trata-se de uma atividade sistemática, que perpassa toda a
cadeia produtiva e está na mesa de todos os brasileiros. É algo central
da organização do próprio mercado de trabalho”, explica Marcus
Barberino, juiz do trabalho da 15ª região e coordenador das oficinas
jurídicas da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.
“Ao contrário do que pensam, o trabalho escravo não é exceção. É
termômetro do mercado de trabalho brasileiro, que continua a explorar o
trabalhador de uma forma bastante excessiva”, acrescenta.
Referência internacional De
acordo com a OIT, o Brasil é uma referência internacional positiva em
relação à luta contra este crime, estando na ponta dos esforços
mundiais de erradicação. Há 15 anos o Estado desenvolve políticas de
combate à prática. De acordo com os números da Secretaria Especial de
Direitos Humanos, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foram
seis mil trabalhadores resgatados. No governo Lula, foram 30 mil, como
resultado do aumento do enfrentamento.
No entanto, muito ainda
precisa ser feito para eliminar em definitivo tal violação de direitos.
Um dos maiores desafios no campo legislativo é a aprovação da Emenda
Constitucional 438/01, que prevê a expropriação de terras, sem direito
a indenizações, onde for encontrada mão de obra escrava. Em 2001, a PEC
foi aprovada em pelo Senado, mas até hoje espera a aprovação em segundo
turno na Câmara dos Deputados, onde se encontram diversos parlamentares
que já figuraram na chamada lista suja do trabalho escravo. “Há
anos lutamos pela aprovação prioritária da PEC. Mas apesar dos
compromissos manifestados, não conseguimos avançar”, relata o senador
José Nery, do PSOL/PA, presidente da subcomissão de combate ao trabalho
escravo da Comissão de Direitos Humanos do Senado. “O trabalho escravo
nada mais é do que um elemento inerente à reprodução do sistema
capitalista vigente em nosso país e as forças degradantes de trabalho
são algo que se reproduz historicamente desde a colonização. Aprovar a
PEC e garantir o confisco de terras sem indenização aos escravagistas
contemporâneos corresponde para nós a uma segunda lei áurea”, acredita.
No
dia 13 de maio deste ano, um abaixo assinado que já conta com mais de
200 mil assinaturas será entregue ao presidente da Câmara dos Deputados
reivindicando a votação da PEC em segundo turno na Casa. O objetivo é
aprovar a emenda constitucional ainda no primeiro semestre de 2010. Em
fevereiro, será lançada uma Frente Parlamentar de combate ao trabalho
escravo no Congresso Nacional.
No campo jurídico, além de
ações de formação e treinamento de juízes, o Ministério Público do
Trabalho tem ampliado sua atuação no combate ao crime. Em vez de
trabalhar a partir do recebimento de denúncias, como era feito
anteriormente, os procuradores agora desenvolvem um trabalho menos
reativo, de busca de dados e maior abrangência das ações movidas na
Justiça.
“É preciso ir além de uma atuação pontual, em que
algumas empresas são acionadas e outras não, já que a violação permeia
todo um setor produtivo”, explica Sebastião Caixeta, procurador do
trabalho à frente da Coordenação Nacional do Combate ao Trabalho
Escravo do Ministério Público do Trabalho. “Também estamos movendo
ações de dano moral coletivo, na construção de uma teoria que vem se
firmando, com acolhimento da Justiça do Trabalho, que é a imposição de
um pagamento pelo dano genérico já causado por essa violação, com os
valores sendo revertidos para a classe trabalhadora. Hoje o trabalho
escravo não ataca apenas a liberdade individual, mas também a dignidade
da pessoa humana. Por isso, merece a repressão criminal,
administrativa, trabalhista e civil do sistema de Justiça”, afirma.
Neste
28 de janeiro, Dia Nacional de combate ao trabalho escravo, a esperança
dos ativistas e militantes que participam da décima edição do Fórum
Social Mundial em Porto Alegre é acabar com a sensação de impunidade
que ainda paira sobre aqueles que praticam o crime, e construir
mecanismos que, de fato, erradiquem o trabalho escravo no país.
“E
isso só vai acontecer quando o Brasil realizar a reforma agrária. É
algo que passa por uma mudança no modelo de desenvolvimento no país, um
modelo não exploratório, que não utilize pessoas como bucha de canhão
para obter lucro”, concluiu Leonardo Sakamoto, coordenador da Repórter
Brasil.
Fotos: Eduardo Seidl
fonte: CARTA MAIOR
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